IV Seminário de Educação Ambiental para as Cidades Pantaneiras e Fome Zero da EA

05/07/2010 15:26

Em novembro de 2003, em Cuiabá – MT, o Fome Zero da Educação Ambiental reuniu a Rede Aguapé de Educação Ambiental do Pantanal, a Mupan e a Rede Mato-Grossense de Educação Ambiental (Remtea) num evento que contribuiu com o fortalecimento de políticas públicas, diagnósticos, projetos, programas e debates sobre a EA de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraguai.

Foi o primeiro evento de EA com a proposta de unir os Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul para fortalecimento conjunto da educação para a sustentabilidade. Diversos eventos paralelos ocorreram no período:

- IV Seminário de Educação Ambiental para as Cidades Pantaneiras;
- III Encontro de Educadores Ambientais de Mato Grosso;
- I Encontro da Rede Aguapé de Educação Ambiental do Pantanal;
- III Encontro Mato-Grossense da Carta da Terra;
- Fórum da Rede Brasileira de Educação Ambiental (Rebea): Tecendo Cidadania.


Os eventos articularam ações e conhecimentos de MT e MS na trajetória da EA, promovendo a troca de informações e a prática da EA nos espaços escolares. Além disso, fortaleceu a articulação com as instituições e pessoas que desenvolvem trabalhos e pesquisas na área.

O professor da Universidade Federal de Mato Grosso, Luiz Augusto Passos, explica no artigo a seguir a importância da filosofia e da proposta do Fome Zero da EA.


Fome Zero da EA - Para que uma Filosofia Ambiental?
Por Luiz Augusto Passos*

A importância de uma filososfia ambiental é o de adquirir a prática de filosofar, filosofando; construindo conceitos a partir da riqueza da filosofia precedente e atual, que permitam uma postura crítica, emancipatória e solidária com toda a igualdade e diferenças contida na biosfera, incidindo na construção/desconstrução de conhecimentos, valores e práticas, que assegurem uma qualidade da convivência local e planetária que alcance a felicidade possível.

Uma percepção da natureza nos permite enxergá-la através de clichês ou óculos, que em grande parte dão a cor e definem a realidade para nós, que sempre temos um olhar situado e interessado sobre o mundo. Se a visão ambiental que temos é a de uma natureza que precisa de nossa proteção porque ela está completamente desprotegida nosso papel será o de 'mocinho', se a definirmos no cotidiano como grotesca, perigosa, irascível adotaremos uma posição repressora, de tratá-la por meio da ciência moderna de maneira implacável tentanto dobrá-la para os fins de mercado, com o fito de subjugá-la. Se a vermos como parte de nós, na qual estamos inseridos, a visão ambiental e os compromissos daí derivados serão outros.

Uma filosofia ambiental é um estudo dos clichês ou óculos pelos quais a natureza é vista, ordinariamente; a depender desta visão teremos uma pauta de valores a ordenar o nosso conhecimento, mas também um programa de ação político ou cotidiano. As escolas precisam lançar mão do conhecimento veiculador de uma pespectiva ambiental, porque ela tem desdobramentos íntimos, para nós como cidadãos e como seres planetários.

Epistemologia são clichês que utilizamos para conhecer o mundo e suas relações. É por isso muito importante conhecer estas matrizes, muitas vezes clássicas, e dizer o que implicam do ponto de vista ambiental. Isso é tarefa da Filosofia! A educação ambiental tem por isso uma contribuição que é, na massa de propostas nem sempre capazes de explicitar os presusupostos da ação com respeito ao meio ambiente e nós, obviamente, incluídos; dizer a que viemos e para onde vamos a partir deste modelo do conhecimento.

A Filosofia deve ajudar a este debate esclarecendo as visões e os tipos de compromissos a eles conectados, para que as pessoas saibam explicitamente de onde partem. "Quem são seus amigos 'epistemológicos' para que possamos dizer 'quem são'.

A importância do Fome Zero da EA

Há, já mencionei, uma enorme propositura de projetos, visões, políticas públicas, muitas vezes contraditórias e em busca de hegemonia no país, na América Latina e, sobretudo, no horizonte mundial que joga pesado com financiamentos, controle político, centralismo, e definições de políticas mundiais nas quais cabe-nos freqüentemente o papel de consumidores e não de produtores de uma visão autóctone, crioula...

Repetidas vezes somos excluídos, ou somos apenas consumidores das cestas de 'café da manhã' posto para consumo no supermercado do ambientalismo. Não são apenas visões, são pacotes tecnológicos, a questão de transgenia, a questão da tecnociência, que implicam questões éticas e políticas.

Este encontro, encontro de redes que tem presença na nossa região, devem afirmar uma interlocução destas visões, uma política de troca e aprendizagem nossa com outro pontos de vistas e olhares que não os 'nossos'; e, que nos ajudem com mais clareza posicionarmo-nos face a estas propostas que circulam entre nós.

Não se trata de abrir mão de nossa visão ambiental, mas de fugirmos de fechamento, termos horror a qualquer endogenia, e estarmos abertos a questionamentos, a uma postura democrática e participativa, com peso de consciência... do que isso joga para o futuro planetário da humanidade.

* Luiz Augusto Passos, é docente da UFMT com formação filosófica pela Faculdade Medianeira de Filosofia, Ciências e Letras (SP); é mestre em Educação Pública (UFMT); doutor em Educação e em Diferenciação Étnico-cultural. Também é pesquisador do Grupo de Pesquisa Movimentos Sociais Política e Educação Popular (GEMPSE) e membro de REMTEA. E-mail: passos@cpd.ufmt.br